O Banco Central parece estar fechando uma porta que ficou aberta por tempo demais no Pix.
Participante inativo, mas ainda conectado ao SPI, é risco operacional puro. Não precisa florear muito. Se a instituição não está operando de verdade, mas continua com acesso técnico à infraestrutura, alguém vai olhar para aquilo como oportunidade.
E normalmente alguém olha.
A Resolução BCB 559/2026 vai nessa direção. Se o participante ficar mais de 90 dias sem atividade, ou estiver apenas segurando posição enquanto espera uma condição melhor, ele pode ser retirado do arranjo.
Faz sentido.
Esse tipo de fricção custa dinheiro, exige processo e incomoda quem gosta de operar no limite. Mas o Pix virou infraestrutura crítica. Não dá para tratar acesso técnico ao sistema como se fosse uma integração esquecida em produção.
O ponto dos relatórios de asseguração razoável, feitos por auditores independentes registrados na CVM, também segue a mesma lógica.
Mais custo operacional.
Mais governança.
Mais gente olhando.
Mas depois do volume de fraude e abuso que o sistema vem enfrentando, a régua precisava subir. O tempo de ficar integrado ao sistema nacional de pagamentos sem uma camada séria de controle está acabando.
Enquanto o Banco Central tenta apertar os parafusos técnicos, o lado político mostra um problema bem mais velho.
A 5ª fase da Operação Compliance Zero trouxe suspeitas pesadas envolvendo o senador Ciro Nogueira e o Banco Master. Segundo as investigações, ele teria recebido valores mensais entre R$ 300 mil e R$ 500 mil do dono do banco para apoiar a chamada Emenda Master, que aumentaria a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
Se isso se confirma, o problema não é só corrupção.
É desenho de incentivo.
Aumentar a proteção do FGC pode parecer uma medida técnica para dar mais segurança ao investidor. Mas, dependendo de quem se beneficia, também pode virar uma forma de empurrar risco privado para uma estrutura coletiva de proteção.
E aí o mercado finge que está discutindo estabilidade financeira, quando no fundo pode estar discutindo proteção sob medida.
Tem ainda o caso da participação de R$ 13 milhões na Green Investimentos S.A., vendida por R$ 1 milhão para uma empresa ligada ao irmão do senador, segundo o que foi apontado na operação. O STF precisou bloquear R$ 18,85 milhões.
Isso é o tipo de coisa que deveria acender alerta antes, não depois.
O Brasil gosta de falar sobre digitalização, Pix, open finance, Drex, tokenização e modernização do sistema financeiro. Tudo isso importa.
Mas a infraestrutura digital só resolve parte do problema.
Se os cabos ficam abertos, alguém explora.
Se os controles falham, alguém passa.
Se a regra pode ser moldada por interesse político, o risco muda de lugar, mas não desaparece.
O Banco Central está tentando fechar acessos técnicos que não deveriam continuar ativos.
Ótimo.
Mas a pergunta mais incômoda continua em pé: quem está fechando os acessos políticos que nunca deveriam ter sido abertos?










