Fazia tempo que eu não respondia alguém me chamando de burro.
E não foi falta de oportunidade. Foi escolha.
Porque quando a linha de argumentação da pessoa é tão rasa, tentar argumentar deixa de ser um exercício de lógica e passa a ser perda de tempo. Eu me lembrava de algo que já li: você nunca vai ganhar na argumentação de uma pessoa ignorante. Não porque ela é incapaz de entender, mas porque a intenção nunca foi aprender. É vencer.
Dando o contexto.
Em um grupo de WhatsApp, enviaram um artigo discutindo como o fim da escala 6×1 impactaria o food service. Um texto equilibrado, que colocava na mesa tanto o lado humano quanto a matemática do negócio.
Minha resposta foi uma crítica direta à política pública populista que tenta importar um modelo europeu para a realidade brasileira. Um país onde metade da população não tem saneamento básico, com baixa produtividade e com uma estrutura econômica completamente diferente.
E parte desse problema passa por uma leitura superficial de Marx, repetida como verdade absoluta.
O próprio Marx parte de um ponto simples, mas frequentemente ignorado: para que um modelo socialista funcione, é necessário um nível de prosperidade anterior. Produção, desenvolvimento, capacidade econômica. Sem isso, não existe redistribuição, mas sim escassez.
Foi aí que a discussão começou.
E foi também aí que eu decidi documentar. Mesmo que eu seja o único leitor do meu próprio blog, é útil registrar como funciona a lógica de quem opera puramente por ideologia.
Porque existe um padrão.
Para essa linha de pensamento, duas premissas são quase universais:
- Nunca existiu um socialismo de verdade
- O mundo se divide entre explorador e explorado
A resposta que veio foi exatamente dentro desse roteiro:
“O país produz muito. Só não é próspero por exploração.”
Aqui o debate virou repetição de quem vive dentro da bolha, e precisa de palco.
Existe dado. Existe histórico. Existe análise econômica. Mas tudo isso é reduzido a uma explicação ideológica simples, confortável e pronta.
Foi nesse momento que eu considerei parar.
Mas ainda tentei trazer a conversa para um campo mais objetivo. Mostrei dados. Mostrei produtividade. Trouxe evidência.
Um dos gráficos que compartilhei mostrava a variação do PIB no terceiro trimestre comparado ao segundo trimestre de 2025, em porcentagem. Israel liderando. Brasil entre os últimos.
Ou seja, não era opinião. Era dado.
Mesmo assim, a realidade precisou ser adaptada para caber na narrativa.
E a resposta foi essa:
“Israel produz tecnologia, isso gera valor. Não se come tecnologia. O que se produz de fato é explorado na mão dos grandes produtores que são os donos.”
Aqui a conversa acabou.
Porque ficou claro a limitação do nível do raciocínio.
A verdade é que hoje, comida é produto direto de tecnologia.
Se a comida não está ainda mais cara no Brasil, é justamente porque existe tecnologia permitindo produzir mais, com menos, de forma mais eficiente.
Sem tecnologia:
- a produção cai
- o custo sobe
- o desperdício aumenta
- a oferta diminui
Mas de fato, a pessoa está certa.
Não se come sensor de solo.
Não se come GPS.
Não se come drone.
Não se come melhoramento genético.
Não se come irrigação inteligente.
Não se come maquinário agrícola.
Não se come fertilizante.
Também não se come rastreamento de gado, nutrição controlada ou genética animal.
Curiosamente, o pai dessa pessoa era agricultor, formado em universidade federal.
Israel, por exemplo, inventou irrigação por gotejamento, desenvolveu agricultura no deserto e reaproveitamento de água. Sem tecnologia, simplesmente não produziria comida.
Mas para a realidade caber na rarrativa, pessoas como essa simplifica até caber.
Tecnologia vira “abstrato”.
Comida vira “real”.
E assim o argumento se sustenta pela limitação que a própria pessoa impõe ao raciocínio.
A verdade é simples:
Você não come tecnologia.
Mas sem tecnologia, ninguém come.
E é por isso que argumentar cansa.
Nem tanto pela complexidade do tema, mas pelo comportamento.
As pessoas não tomam decisões baseadas apenas em dados. Elas operam, entre muitos fatores, com base em três coisas: o que viveram, o que leram e o que ouviram dos outros.
Quando alguém nunca saiu do próprio ambiente, vive dentro de uma bolha e se cerca de pessoas que pensam igual, ela não constrói opinião. Ela reforça crença.
E qualquer discordância passa a ser vista como erro de caráter. Por isso é tão simples rotular as pessoas de fascistas, racistas, misóginas, transfóbicas, e assim por diante.
Existe também um esforço ativo em permanecer ignorante.
Um tipo de malabarismo mental para defender o indefensável, ajustando a realidade ao discurso, e não o contrário.
Isso não é exclusividade de um lado político. Existe nos dois.
Mas, na prática, o padrão que mais vejo é o mesmo:
- convicção alta
- base técnica baixa
- experiência prática inexistente
Com um detalhe adicional:
um senso constante de superioridade moral.
A pessoa acredita que está do lado certo da história.
Que se importa mais.
Que entende mais.
Mesmo sem produzir, sem construir e sem sustentar nada na prática.
E no fim, a conclusão é sempre a mesma.
Não é sobre comida.
Não é sobre escala 6×1.
Não é sobre política pública.
É sobre coerência.
Entre o que a pessoa defende e o que ela entende.
Entre o que ela fala e o que ela vive.
E enquanto essa coerência não existir, não existe debate.
Existe apenas repetição.
E repetição não constrói nada.
